A crise provocada pela pandemia da Covid-19 segue causando grandes perdas à economia brasileira. Muitas empresas, cuja atuação havia sido pensada para receber os clientes presencialmente, não conseguiram se adaptar para a nova realidade e tiveram que fechar as portas. De acordo com a Pesquisa Pulso Empresa: Impacto da Covid-19 nas Empresas, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 716 mil empreendimentos encerraram suas atividades durante a pandemia.

O coronavírus também mostrou que muitas empresas não haviam se planejado para o enfrentamento de crises. Um levantamento realizado pelo Grupo Daryus – que atua na gestão empresarial, estratégica e de riscos – indica que 43% não tinham um Plano de Continuidade de Negócios (PCN) ou Gestão de Crises (PGC). Dos empresários ouvidos, apenas 12% haviam estruturado estratégias de continuidade, mas nem os mais precavidos imaginaram um cenário de pandemia no momento da definição desses planos.

Os grandes diferenciais para a sobrevivência dos negócios foi a rápida adoção de medidas sanitárias e a implementação da inovação nas estratégias comerciais. A tecnologia tem sido fundamental para a manutenção das atividades econômicas e essa tendência deve se estender para o período pós-pandemia. O home office continuará sendo a realidade de muitas pessoas; feiras e grandes eventos aumentarão o alcance de público por meio de modelos híbridos; e consumidores poderão se utilizar da realidade aumentada para testar produtos sem sair de casa.

Uma das tecnologias que se firmaram durante as restrições de circulação, foi a Realidade Virtual (RV). Em linhas gerais, ela consiste na criação de ambientes digitais e permite ao usuário a interação com esses espaços por meio da utilização de óculos de RV. Já “figura carimbada” no mercado de games, a RV tem ganhado protagonismo em muitos outros setores.

Um exemplo é a utilização da RV para a realização de treinamentos para profissionais de diversos segmentos. Atualmente, muitos processos preparatórios práticos, que exigiam a presença do colaborador em uma fábrica, podem ser realizados à distância. Em alguns casos o funcionário precisava viajar para outros estados ou países e a realização virtual desse aprimoramento pode representar economia de recursos para as empresas.

Com o fechamento de fronteiras e restrição de circulação, viajar virtualmente foi uma opção para muitas pessoas e para a realização de excursão das escolas. Não tenho dúvidas de que, no turismo, a viagem real terá preferência no pós-pandemia. Mas o virtual pode ser uma forma de possibilitar o acesso de alunos às cidades importantes da história do Brasil, permitirá que eles visitem as antigas civilizações, os grandes impérios, nossa floresta Amazônica, os mares, entre tantos outros lugares e episódios da história mundial.

Na área da saúde, a realidade virtual ratificou seu potencial. Equipes médicas têm utilizado ambientes simulados para o planejamento de cirurgias complexas, o que permite que o procedimento seja realizado de forma mais ágil no paciente. No processo de formação de futuros médicos, a tecnologia permite simular o corpo humano, sem a necessidade de cadáveres reais em muitas situações.

O fato é que a virtualização de experiências cresceu muito durante a pandemia e acabamos conhecendo coisas que talvez não estariam no nosso radar, se não fosse no contexto atual de restrições de circulação. Para muitos casos, o real ainda será o melhor caminho e, para outros, o virtual. Com a retomada das atividades, essas soluções tendem a ficar mais maduras e a opção entre um modelo ou outro será uma escolha e não uma necessidade imposta por restrições.

Por Paulo Melo, psicólogo, com mestrado em psicologia cognitiva e doutorado em desenho industrial pela TU/e. Atualmente, ele é gerente sênior do Sidia, que trabalha com tecnologias emergentes para clientes globais.