Computação para idosos

Por Flávia Santos*

Você pode estar se perguntando: qual a motivação de considerar este público para o desenvolvimento de sistemas computacionais? Então, vou tentar mostrar alguns dados que nos levam a verificar a necessidade de se fazer isso.

É bem provável que você já tenha ouvido algo sobre “envelhecimento populacional”. Segundo uma estimativa da ONU, entre 2015 e 2050, a população com mais de 65 anos será de 28% na Europa, 23% na América do Norte e, mais de 18% das populações da Ásia, América Latina, Caribe e Oceania. Assim, o envelhecimento populacional já é considerado um fenômeno mundial.

Essa crescente parcela da população movimenta a economia de diferentes setores e o setor de tecnologia tem ganhado espaço e investimento em suas vidas. Contudo, a interação de usuários idosos com tecnologias computacionais evidencia novos desafios à Ciência de Computação, especialmente desafios vinculados ao campo da acessibilidade em interfaces computacionais.

A adoção de inovações tecnológicas por idosos é um pouco diferente da rotina dos jovens. A pesquisa de Santos, Ishitani e Nobre (2014) aponta que idosos adotam tecnologias quando identificam alguma utilidade para sua vida e não simplesmente pelo fato dessa tecnologia ser nova. Alguns outros fatores também podem influenciar na adoção ou não, e até́ na escolha de qual tecnologia será adotada, sendo esses fatores geralmente relacionados com as barreiras funcionais do uso da inovação, os componentes tecnológicos utilizados na interface, e até́ o preço praticado no mercado. O fato dessas aplicações muitas vezes não terem sido projetadas para esse público, não considerando as restrições físicas e cognitivas decorrentes da idade, podem ser barreiras para o uso da tecnologia.

Algumas barreiras se devem ao fato de que à medida que as pessoas envelhecem há́ uma redução não só́ na capacidade geral de manter a atenção, mas também em suas habilidades motoras sensoriais. Para Palacio et al. (2017), visão, audição, mobilidade e cognição são as principais limitações dos idosos em termos de saúde que devem ser consideradas ao usar um computador ou sistema computacional.

Trewin et al. (2012) afirmam que os usuários idosos tendem a ser um grupo mais heterogêneo, em parte devido aos efeitos de variáveis relacionadas com a idade, como alterações das habilidades cognitivas, físicas e sensoriais. As alterações das funções cognitivas decorrentes do processo normal de envelhecimento são comentadas e apontadas por diferentes autores da literatura. Segundo Nordon et al. (2009) o esquecimento de fatos recentes, as dificuldades de cálculo e as alterações de atenção podem ser comumente observados como naturais no envelhecimento. No entanto, muitas vezes a perda cognitiva pode ser observada somente se o idoso requer mais de sua memória que o comum; desta forma pessoas com uma rotina estabelecida, sem necessidade de muita atividade intelectual, podem perceber o declínio somente quando a perda for mais pronunciada, podendo ocasionar inclusive o atraso de um diagnóstico de algo mais grave.

Percebendo então as possíveis implicações do processo de envelhecimento para os indivíduos e a representatividade dessa população na adoção de tecnologias, é importante desenvolver interfaces que sejam mais acessíveis para este público, respeitando critérios de ergonomia e usabilidade, assim como afirma Tavares e Souza (2012).

Existe uma expectativa de que as próximas gerações de idosos não enfrentem tamanha dificuldade em relação às futuras mudanças tecnológicas, dado o fato de já́ desenvolverem habilidades com as tecnologias atuais e que muitas, provavelmente, já́ estarão inseridas no mercado de trabalho por mais tempo, tornando-se mais familiares a eles (CZAJA; SHARIT, 2009). Mas esse contexto é desafiador e faz com que a preocupação com a inclusão digital seja continuamente tratada, para acompanhar a evolução contínua de novos avanços que venham a surgir.

Garantir a inclusão digital é mais do que ter um novo nicho de clientes/usuários, é também garantir que este público não fique à margem da sociedade e possa, assim, participar mais ativamente de grupos sociais, inclusive familiares.

Um exemplo real dos benefícios da inclusão digital de idosos no momento de uma pandemia, que estamos vivendo, é a evidente necessidade de isolamento social, sobretudo deste grupo que apresentou altos índices de internação e óbitos. Assim, em nossos grupos sociais podemos perceber que muitos idosos passaram a se comunicar com alguns familiares e amigos somente por meios digitais, por chamadas telefônicas, chamadas de vídeo e serviços de mensagens instantâneas. Os meios de entretenimento também tiveram de ser ajustados neste período, parte deles podendo ter se tornado mais digitais.

Envelhecer é um processo natural, e ainda irreversível, por isso espera-se que projetistas e desenvolvedores possam se dedicar o mais breve possível ao desenvolvimento de sistemas mais acessíveis a todos. As atuais e futuras gerações agradecem.

 

Referências:

CZAJA, S. J.; SHARIT, J. Preparing organizations and workers for current and future employment:

Training and retraining. Aging and work: Issues and implications in a changing

landscape, Johns Hopkins University Press, Baltimore, MD, US, p. 259–278, 2009. Disponível em: <http://psycnet.apa.org/record/2009-17999-014>.

 

NAÇÕES UNIDAS DO BRASIL. Cúpula da ONU discute envelhecimento populacional

e desenvolvimento sustentável. 2017. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/76184-cupula-da-onu-discute-envelhecimento-populacional-e-desenvolvimento-sustentavel>. Acesso em: 14/05/2021.

 

NORDON, D. G.; GUIMARÃES, R. R.; KOZONOE, D. Y.; MANCILHA, V. S.; NETO, V. S. D.

Perda cognitiva em idosos. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba. ISSN

eletrônico 1984-4840, v. 11, n. 3, p. 5–8, 2009.

 

PALACIO, R. R.; ACOSTA, C. O.; CORTEZ, J.; MORÁN, A. L. Usability perception of

different video game devices in elderly users. Universal Access in the Information Society,

Springer, v. 16, n. 1, p. 103–113, 2017. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.

1007/s10209-015-0435-y>.

 

SANTOS, L. G. N. de O.; ISHITANI, L.; NOBRE, C. N. Uso de jogos casuais em celulares por

idosos: um estudo de usabilidade. Revista de informática aplicada, v. 9, n. 1, 2014.

 

TAVARES, M. M. K.; SOUZA, S. T. C. de. Os idosos e as barreiras de acesso às novas tecnologias

da informação e comunicação. RENOTE, v. 10, n. 1, 2012.

 

TREWIN, S.; JOHN, B.; RICHARDS, J.; SLOAN, D.; HANSON, V.; BELLAMY, R.; THOMAS,

J.; SWART, C. Age-specific predictive models of human performance. In: CHI ’12 Extended

Abstracts on Human Factors in Computing Systems. New York, NY, USA: ACM, 2012.

(CHI EA ’12), p. 2267–2272. ISBN 978-1-4503-1016-1. Disponível em: <http://doi.acm.org/10.

1145/2212776.2223787>.

 

*Flávia Santos é pesquisadora do SOL – Sidia, doutoranda em Ciências Matemáticas e de Computação na Universidade de São Paulo (USP), mestre pela mesma instituição e graduada em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Em seu mestrado propôs um método para avaliar a usabilidade de jogos voltados ao público idoso, e em seu doutorado estuda a automatização da avaliação de usabilidade considerando as emoções dos usuários. Sua principal área de pesquisa é Interação Humano-Computador e suas áreas de interesse incluem: Dispositivos Móveis, Computação Ubíqua, Reconhecimento de Emoções, Aprendizado de Máquina, Engenharia de Software e Informática na Educação.